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Mensagens

Memória

Não somos apenas a memória do que fomos. Somos o que fazemos com essa memória. Somos a causa e o efeito: a causa porque somos quem cria essa memória; o efeito porque, uma vez criada a memória, não há forma de evitar as suas consequências. Frequentemente, as próprias memórias acabam por dissipar-se no tempo; talvez porque, como humanos, não seríamos capazes de suportar todos os seus efeitos ou simplesmente porque outras se vão criando e apagando as anteriores. Também existem outras memórias que teimam em enraizar-se. Fazem-no de tal forma (ou permitimos nós que o façam de tal forma) que as suas consequências, aquilo que em nós despertam, passa a ser uma parte de nós próprios. Já não seríamos os mesmos sem elas. Mas quando o passado, na forma de memória presente, condiciona quem somos, não sendo já possível distinguir a causa do efeito, nem a memória do Eu, a solução será cortarmos as raízes? Isso seria o equivalente a negar o passado, a memória. Talvez a solução passe por aprender a co…
Mensagens recentes

Tempo

Sinto o tempo a passar como pingos de uma torneira mal fechada. Se fechasse os olhos, conseguiria ouvir o eco de cada segundo a formar poças, depois lagos, depois rios. Um mar.
O tempo pesa. Não como uma pedra, mas como a mão castigadora de um pai. Está sempre pronto a mostrar a sua dureza quando nos esquecemos de lhe reconhecer a autoridade.
O tempo é uma sombra que muda de tamanho, ora pequena, na madrugada do dia, ora imensa, no crepúsculo da idade. Arrasta tudo para dentro de si para depois tudo devolver: colhe para depois semear. Uma poça, logo um mar. O peso do tempo é o volume dessa água acumulada, desses pingos recolhidos ao longo de uma vida. Não se perde, transforma-se: em oceano profundo, em alto-mar imenso, em maremotos, por vezes. Mas é apenas quando se forma oceano, que vemos a linha do horizonte cada vez mais firme, mais distinta. É no alto-mar, na tempestade ou na planura das águas tranquilas, que distinguimos quem somos: a poça que éramos, o rio que percorremos e o mar …

O Deus da Carnificina

Dois casais encontram-se com o objectivo de chegar a um possível acordo, na sequência de uma luta entre os respectivos filhos. O encontro começa por ser civilizado, ainda que repleto de momentos já algo irónicos que deixam antever a "carnificina" prometida pelo título. O filme centra-se, literalmente, nestas quatro personagens e decorre sempre no mesmo espaço. Num crescendo de emoções, os comentários vão passando de simples eufemismos ao insulto puro e as personagens despem-se da máscara socialmente aceite para assumirem os seus traços mais naturais, menos limados. É uma comédia teatral, com um argumento sublime, em que a hipocrisia é ridicularizada e em que se destacam Jodie Foster e Christoph Waltz (inimitáveis nos seus papéis). Dirigido por R. Polanski, este filme leva as pessoas a rir da desgraça alheia; no final, o objectivo talvez seja levá-las a perceber que aquilo de que se riram é apenas um reflexo de si próprias.

Servidão Humana

O livro "Servidão Humana" ("Of Human Bondage"), de W. Somerset Maugham, é considerado uma obra-prima. E é. Durante todo o livro, acompanhamos o percurso de vida de Philip Carey, um rapaz que nasceu com uma deficiência e que muito cedo perde a mãe. É criado pelos tios (um vigário conservador e a esposa submissa). Desde logo, e até ao final, damos por nós a querer fazer algo por ele: a torcer para que a mãe não morra, a querer bater nos miúdos que gozam com ele, a detestar o tio pela atitude fria e ausente, bem como a tia pela sua passividade. Philip cresce e, quando ele se apaixona cegamente por uma mulher que apenas o humilha, o usa, se aproveita dele, o agride e o trai, queremos sacudi-lo para que acorde e saia daquele marasmo. Philip cresce enquanto pessoa, evolui, apesar de ter uma tendência enorme para repetir os mesmo erros. Compreendemos tudo o que ele faz, sentimos empatia por ele e isso prende-nos. Sofremos com as dores dele e exultamos quando é bem-sucedid…

Quanto mais se mexe na merda...

... pior cheira.
Nos últimos tempos, têm vindo a público notícias preocupantes directamente do mundo do futebol. Não estou a falar de exibições, nem de resultados, nem do mercado de transferências. Falo das mortes, do sangue, dos cânticos palermas e das intervenções disparatadas. Tudo junto, cheira mesmo mal. O que cheira ainda pior é ouvir os dirigentes, do alto do seu pedestal, proferirem mensagens cordiais "lamento muito", "não nos identificamos", "condenamos os actos", etc., etc... para, logo de seguida, partir ao ataque, atirando culpas, apontando o dedo a fulano e sicrano. Pergunto: quando é que estas pessoas largam o cinismo e as falsas moralidades? Quando é que deixam de sacudir a água do capote e assumem as responsabilidades que têm? No caso do atropelamento, dos cânticos, dos insultos, das rixas e sei lá que mais, seria útil que aquelas pessoas assumissem uma posição apaziguadora. Seria mais útil, menos perigoso e bem mais saudável. Com as mãos s…
Não sei escrever a alegria,
o riso espontâneo,
o dia contente.
Não sei dizer a luz
que se abre 
quando estás presente.
Sei como se descreve
o corpo arrepiado,
o coração acelerado,
Mas não sei usar as palavras
para te dizer como és amado.
Não sei como se escreve
o brilho nos olhos,
no ventre o calor,
por que ortografia se rege
a gramática do amor.
Não sei escrever feliz.
Faltam letras.
Perde-se o sentido.
O amor escreve-se, assim,
Num idioma desconhecido.

Sonho

Percorria-lhe o corpo o ar frio da noite. Estava escuro e não via o caminho à sua frente. Tinha saído de casa a correr, assustada e desesperada. Sentia na nuca um calor, como o bafo quente de um animal pronto a abocanhá-la. Corria mais depressa. Cada vez mais depressa. Sentia uma presença atrás de si. Um murmúrio, uma respiração ténue mas pesada. Na garganta, prendia-se-lhe um nó que não a deixava gritar. Um nó tão apertado que a sufocava. As lágrimas começaram a correr pelo rosto, logo afastadas pelo vento que as cortava ao meio como uma lâmina. Corria, corria. Já não sentia as pernas, nem os pés. Apenas as mãos cerradas com tanta força que os nós dos dedos estavam agora brancos. Aquele calor na nuca espalhava-se pelos ombros. Empurrava-a em direcção ao chão. Contrariou o mais que pôde essa besta invisível que a perseguia e que a puxava para si com um poder magnético. Chega, pensou. Ou disse-o alto. Porque nesse momento tudo parou. O vento amainou. O calor arrefeceu. As lágrimas seca…

Filomena e Manuel

O Rui Pedro desapareceu há mais tempo do que devia. Cinco minutos teriam sido mais do que devia. Sei que a ideia que tenho do sofrimento daqueles pais não passa disso mesmo: duma ideia vaga, talvez aproximada, talvez muito longe da realidade. A Filomena e o Manuel deixaram de ser a Filomena e o Manuel. São apenas "a mãe do Rui Pedro" e o "pai do Rui Pedro". Mesmo desconhecendo-se o paradeiro do Rui Pedro, eles continuam a ser e são apenas os pais dele. 
De cada vez que vejo a Filomena e o Manuel na televisão pergunto-me se o Rui Pedro também ainda é o filho da Filomena e o filho do Manuel. Pergunto-me se ele ainda sabe quem é, de onde veio. Não foi só ele que desapareceu naquele dia; foi ele, a Filomena e o Manuel. Como a Filomena e o Manuel haverá milhões de mães e pais na mesma situação. Órfãos de filhos de paradeiro desconhecido. Pais de um enigma. Mães de colo vazio e pais de braços estendidos, à espera. Pais que vivem no silêncio de quem pergunta e não tem resp…