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Mensagens

Servidão Humana

O livro "Servidão Humana" ("Of Human Bondage"), de W. Somerset Maugham, é considerado uma obra-prima. E é. Durante todo o livro, acompanhamos o percurso de vida de Philip Carey, um rapaz que nasceu com uma deficiência e que muito cedo perde a mãe. É criado pelos tios (um vigário conservador e a esposa submissa). Desde logo, e até ao final, damos por nós a querer fazer algo por ele: a torcer para que a mãe não morra, a querer bater nos miúdos que gozam com ele, a detestar o tio pela atitude fria e ausente, bem como a tia pela sua passividade. Philip cresce e, quando ele se apaixona cegamente por uma mulher que apenas o humilha, o usa, se aproveita dele, o agride e o trai, queremos sacudi-lo para que acorde e saia daquele marasmo. Philip cresce enquanto pessoa, evolui, apesar de ter uma tendência enorme para repetir os mesmo erros. Compreendemos tudo o que ele faz, sentimos empatia por ele e isso prende-nos. Sofremos com as dores dele e exultamos quando é bem-sucedid…
Mensagens recentes

Quanto mais se mexe na merda...

... pior cheira.
Nos últimos tempos, têm vindo a público notícias preocupantes directamente do mundo do futebol. Não estou a falar de exibições, nem de resultados, nem do mercado de transferências. Falo das mortes, do sangue, dos cânticos palermas e das intervenções disparatadas. Tudo junto, cheira mesmo mal. O que cheira ainda pior é ouvir os dirigentes, do alto do seu pedestal, proferirem mensagens cordiais "lamento muito", "não nos identificamos", "condenamos os actos", etc., etc... para, logo de seguida, partir ao ataque, atirando culpas, apontando o dedo a fulano e sicrano. Pergunto: quando é que estas pessoas largam o cinismo e as falsas moralidades? Quando é que deixam de sacudir a água do capote e assumem as responsabilidades que têm? No caso do atropelamento, dos cânticos, dos insultos, das rixas e sei lá que mais, seria útil que aquelas pessoas assumissem uma posição apaziguadora. Seria mais útil, menos perigoso e bem mais saudável. Com as mãos s…
Não sei escrever a alegria,
o riso espontâneo,
o dia contente.
Não sei dizer a luz
que se abre 
quando estás presente.
Sei como se descreve
o corpo arrepiado,
o coração acelerado,
Mas não sei usar as palavras
para te dizer como és amado.
Não sei como se escreve
o brilho nos olhos,
no ventre o calor,
por que ortografia se rege
a gramática do amor.
Não sei escrever feliz.
Faltam letras.
Perde-se o sentido.
O amor escreve-se, assim,
Num idioma desconhecido.

Sonho

Percorria-lhe o corpo o ar frio da noite. Estava escuro e não via o caminho à sua frente. Tinha saído de casa a correr, assustada e desesperada. Sentia na nuca um calor, como o bafo quente de um animal pronto a abocanhá-la. Corria mais depressa. Cada vez mais depressa. Sentia uma presença atrás de si. Um murmúrio, uma respiração ténue mas pesada. Na garganta, prendia-se-lhe um nó que não a deixava gritar. Um nó tão apertado que a sufocava. As lágrimas começaram a correr pelo rosto, logo afastadas pelo vento que as cortava ao meio como uma lâmina. Corria, corria. Já não sentia as pernas, nem os pés. Apenas as mãos cerradas com tanta força que os nós dos dedos estavam agora brancos. Aquele calor na nuca espalhava-se pelos ombros. Empurrava-a em direcção ao chão. Contrariou o mais que pôde essa besta invisível que a perseguia e que a puxava para si com um poder magnético. Chega, pensou. Ou disse-o alto. Porque nesse momento tudo parou. O vento amainou. O calor arrefeceu. As lágrimas seca…

Filomena e Manuel

O Rui Pedro desapareceu há mais tempo do que devia. Cinco minutos teriam sido mais do que devia. Sei que a ideia que tenho do sofrimento daqueles pais não passa disso mesmo: duma ideia vaga, talvez aproximada, talvez muito longe da realidade. A Filomena e o Manuel deixaram de ser a Filomena e o Manuel. São apenas "a mãe do Rui Pedro" e o "pai do Rui Pedro". Mesmo desconhecendo-se o paradeiro do Rui Pedro, eles continuam a ser e são apenas os pais dele. 
De cada vez que vejo a Filomena e o Manuel na televisão pergunto-me se o Rui Pedro também ainda é o filho da Filomena e o filho do Manuel. Pergunto-me se ele ainda sabe quem é, de onde veio. Não foi só ele que desapareceu naquele dia; foi ele, a Filomena e o Manuel. Como a Filomena e o Manuel haverá milhões de mães e pais na mesma situação. Órfãos de filhos de paradeiro desconhecido. Pais de um enigma. Mães de colo vazio e pais de braços estendidos, à espera. Pais que vivem no silêncio de quem pergunta e não tem resp…

Rebanho

Os sinos tocavam
chamando a aldeia.
Iam as mulheres, os homens,
voltavam de alma cheia.
Rezavam o terço
repetiam novenas.
As vozes calavam-se,
ecoavam cantilenas.
No altar, o senhor,
à direita, a sua mãe.
À esquerda a santa
cujo nome é o meu também.
Os sinos, quando tocavam,
eram toque do tambor,
eram ordem militar
era remédio para a dor.
O povo saía de casa,
pelos sinos enfeitiçado,
na sua roupa de domingo,
com o sapato engraxado.
O padre, seboso,
regozija com a plateia.
Ovelhas fiéis, obedientes,
todo um povo, uma aldeia.
Os bancos eram duros.
Os joelhos estavam doridos.
Mas o rebanho ajoelhava,
mostravam estar arrependidos.
O sacristão dormitava, 
escondido na sacristia.
Bebericou da garrafa.
Roubou o azeite da almotolia.
Satisfeito com o remorso,
feliz pela penitência,
o padre apela ao sacrifício
da já sacrificada audiência.
Pede luto, lágrimas, sofrimento,
roupa escura, jejum.
Pede joelhos em sangue.
Pede tudo e a ele, nenhum.
Os sinos voltavam a tocar,
expulsavam todo o rebanho.
Mandavam todos para casa:
o carneiro, ovel…

2 meses, 4 livros

Isto da leitura pode ser um vício muito forte. Entra-se numa história, nas suas personagens e, quando dou por ela, já estou obcecada pelo desenlace. Dou por mim a imitar gestos que se descrevem: "um sorriso de tristeza", e eu sorrio com tristeza; "um sobrolho de desconfiança" e eu levanto a sobrancelha, desconfiada. Por vezes, pesquiso informações na Internet: um poema de Yates cujo título aparece mencionado, uma música que uma personagem gosta de ouvir, uma cidade perdida numa ilha qualquer. Ler, para mim, tem este poder: de me alienar do mundo, entrar dentro de uma vida que não é a minha (ou que é tão parecida com a minha) e fazer das emoções das personagens as minhas. É por isso que leio: para sentir, para ver, para viver.

Desde o início de Julho, até agora, li 4 livros:



"Todos os Nomes", do meu sempre querido José Saramago. As palavras são poucas para descrever as histórias que nos conta. Esta em particular tem o seu quê de "policial" e, ao me…

No espaço que é nosso

Existe um espaço estreito a que chamamos silêncio, onde falamos por sinais, onde calamos as vozes  e onde somos imortais. Existe um espaço secreto onde nos perdemos,  tu e eu, em que não há nomes, não há ruas, não há pessoas. Há apenas um chão e um céu. Existe um espaço escondido entre as tuas mãos e a minha pele, entre os meus olhos e os teus. É um espaço apertado, sufocante, que se quer soltar, que quer gritar! Um espaço ofegante por sede de se querer mostrar. Nesse espaço latejante onde somos ferida aberta, somos o sangue a jorrar, somos a pressa em chegar, onde somos feras,  dominadas e dominantes, há brasas que nos marcam no corpo sinais da guerra que travamos nesse espaço em que somos amantes.