12 Janeiro 2012

a moldura

Lembro-me do cheiro do quarto. Um quarto pequeno, com uma janela. Uma cama, uma mesa de cabeceira e um divã fechado. Não havia espaço para mais nada. Só para mais duas pessoas que, à noite, lá dormiam. Em cima do divã, por cima da cortina - verde com flores - feita à medida que o tapava, havia um pequeno rádio. Um terço, alguns trocos e outros objectos que a memória não consegue visualizar. Na mesa de cabeceira guardavam-se medicamentos, papéis, dinheiro. Por cima, um naperon que era trocado frequentemente por outro, bordado à mão. Um pisa-papéis com aspecto vítreo em cujo interior estavam conchas pequeninas, não sei de que mar. E, era aí, que estava também a moldura transparente, de acrílico. Simples, sem adornos. Tão simples e tão cheia. Nela, a fotografia de uma menina de 10 anos. A essa fotografia, juntou-se num canto a da mesma menina mas com menos uma década, em bebé. A menina das fotografias sou eu. Quem dormia naquele quarto era eu e a minha avó e foi ela quem me ofereceu a moldura. Partiu-se, ontem. E, ao olhar para ela, partida, e para a menina a sorrir, dá-me vontade de chorar. Porque era um dos objectos que me restava da memória física daquele quarto, das noites com a minha avó.

14 Dezembro 2011

Campo de visão

Podia ser de noite,
escuro profundo, 
nada.
Podia ser de madrugada,
sombra e luz apagada.
Podia ser cega,
de olhos inutilizados.
Podia ser uma venda,
uma mordaça,
sentidos aniquilados.
Podia ser o apocalipse,
nostradamus, o fim.
Podia ser a morte.
Continuaria a ver-te,
a sentir-te em mim.

13 Dezembro 2011

modo tubo de ensaio

Boa noite, mundo. Estou em modo "tubo de ensaio". As ideias estão por aqui todas misturadas, como poção pseudo-mágica à espera que um cientista maluco grite "Eureka!". Esse cientista maluco, tudo indica, sou eu. Mas parece-me estar longo do momento M, da hora H, do dia D. Espalho as ideias, separo-as, miro-as, testo-as e... nada... não chego a conclusão nenhuma. Cá no fundo, sinto que algo está para se "eurekar"! Aguardemos.

16 Novembro 2011

Insanidades #2

É ver os tugas hoje, felizes e contentes, por mais uma vitória da selecção. Que brilhantes que somos! Que bons que somos! Somos os maiores! Que orgulho este de ser tuga! Temos o CR na selecção e isso enche-nos de orgulho e optimismo! Espectáculo! Somos apurados para o Euro e somos os maiores! Vamos dar couro e cabelo para assistir ao jogos, mas não faz mal! Ainda no outro dia enchemos a boca para chamar nomes ao jogar desta mesma selecção, mas não importa. Eles compreendem o nosso mau humor.
É ver os tugas maldispostos e irritados, pessimistas e em tom agravado de raiva, por novas medidas de austeridade. É vê-los a convocar manifestações e a baldarem-se à mesma no próprio dia, porque "este dia até me dá jeito para ir às compras". Somos a vergonha da Europa! O governo rouba-nos e nós deixamos. Somos uns tristes! Somos uma merda! Temos vergonha de ser tugas e "daqui a nada estou a emigrar"! 
Mais um pouco, e estamos todos a votar no CR para Primeiro Ministro e a aprovar leis de austeridade por sorteio, à la Ligue! Talvez assim atribuíssemos mais crédito ao nosso país e nos envolvêssemos mais nas questões que realmente interessam! 

02 Novembro 2011

Lula

Chama-se Lula e é a mais recente menina deste agregado familiar. Tem poucos meses. Ainda não sabemos quantos ao certo, só depois de ser avaliada por um veterinário é que saberemos mais informações técnicas. Sabemos que foi encontrada num pinhal (prefiro acreditar que se tenha perdido da mãe e não que tenha sido abandonada...) e nós adoptámo-la ontem. Foi um amor à primeira vista! 
Cá por casa, todos estão apaixonados por ela.  Todos menos a Fénix. Por enquanto, vai rondando e cheirando a Lula quando ela está a dormir. Quando ela se levanta e anda pela casa à descoberta, a Fénix revela a felina que há nela: rosna, fica com o pêlo todo em pé e já lhe tentou dar uma sapatada. A ver vamos como isto corre... espero que se habituem uma à outra rapidamente!
À parte disto, já fomos presenteados com um cocó e vários xixis em sítios menos próprios. Ossos (ou merdas) do ofício!
Aos interessados, a Associação Protectora dos Animais da Marinha Grande tem página no Facebook: APAMG. Por lá, podem encontrar imensos animais a precisar de uma casa e de mimo. Aceitam o desafio?

10 Outubro 2011

insanidades #1

Vem uma pessoa feliz e contente, de carro, nas calmas. Vem uma pessoa à frente que, como eu, não deve gostar de ter o vidro do carro sujo. Essa pessoa liga as escovas e a água. A lei da gravidade e da movimentação dos corpos fazem com que a água caia também no meu. Não gosto nada quando isto acontece e faço o mesmo: ligo as escovas e a água. E outra vez. E outra vez. É que gosto mesmo que o vidro esteja limpo. E nisto, eis que a senhora que segue atrás de mim desata a apitar e a ralhar comigo porque acabei de lhe molhar o vidro...!! Exagero? Não! Insanidade!!

09 Outubro 2011

Recomeçar

"Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade." (Miguel Torga)
 Os recomeços podem ser muito duros. Levantar após uma queda pode não ser tão simples quanto sacudir o pó das calças e pôr um penso na ferida. Retomar a estrada de que nos desviámos pode ser mais confuso do que parece. Porque tudo isto são meras metáforas. E a vida, os recomeços reais, os desafios, os insucessos, as perdas, os corações partidos pouco têm de metafórico; são verdadeiros, magoam, são cortes profundos e deixam cicatrizes que nos acompanham pela vida fora. 
Recomecei tantas vezes que já nem sei quantas foram ao certo. E, de todas as vezes, o que mais me custou foi não encontrar o eufemismo certo que retirasse alguma da crueza às minhas feridas. Até que aprendi a viver com elas e com as minhas cicatrizes: as metaforizadas e as reais. Porque são elas que provam que vivi. Porque não poderia ser de outra maneira: só cai quem vive; mas só recomeça quem se levanta.