15 Julho 2011

Ilda (ou A Mãe que Pede na Rua)

Chama-se Ilda. Estava com 4 filhos em frente ao Pingo Doce a pedir. A pedir comida. Comprei-lhe uma embalagem de leite, pão e um pacote de bolachas. Se não me faz falta o dinheiro? Faz. Também tenho filhos, marido, uma casa e todas as despesas que uma família tem. Mas a Ilda não. Tem quatro filhos. A roupa é velha e os corpos estão sujos. A voz da Ilda é triste e cansada. Fiquei ali um pouco e perguntei onde vivem. "No bairro social", diz a mais velha. "É casada?". "Sim, mas ele também não trabalha". "Tem mais filhos?". Afinal, tem seis filhos no total.
Não saberei se os factos correspondem à verdade ou não. Mas a verdade é que não consigo passar ao lado de pessoas assim sem pensar que poderiam ser os meus filhos, ali. Com fome, roupa suja, sem brinquedos e sem ir à escola. A Ilda pediu comida e não dinheiro. Isso muda tudo. Apertou-me o coração mas, pelo menos, fiz alguma coisa. A Ilda lá ficou a distribuir o pão pelos filhos e a guardar algum para os outros dois que não vieram com ela. Olhava para mim com olhos vazios. Vazios de vida, de esperança. Como se vive assim?
"Deus a ajude", disse-me a Ilda. Se ele tem essa possibilidade, ele que a ajude a si, Ilda. Bem precisa.

3 risco(s):

AnaT disse...

fizeste-me pensar Isabel! quantas pessoas passaram ao lado da Ilda e não pararam? quantas vezes eu já passei ao lado de uma Ilda e nem "olhei"? tens um bom coração, Isabel.

João Paulo Forte disse...

Sim, é sempre complicado saber se os factos correspondem à verdade. Eu, sendo também uma pessoa que dá comida e/ou roupa, em vez de dinheiro, já fiquei desiludido algumas vezes.
Numa dessas vezes, aconteceu que quando fui a uma superfície comercial, levar roupa que já não me servia ou pura e simplesmente já não utilizava, e a coloquei num contentor próprio, aconteceu algo que me irritou... Já a ir embora, olhei pelo espelho e vi uma pessoa a meter a mão dentro do contentor de roupa, tirando o saco com roupa que eu tinha oferecido (pensava eu). Como isto me revoltou, fui falar com um polícia e ele disse-me que aquilo era normal (gente manhosa..). Resultado, nunca mais dei roupa daquela forma e desde então entrego nas "lojas" que muitas autarquias têm para receber roupa usada e distribuir pelos mais necessitados. Pelo menos aí tenho mais garantias.
Outra situação, já aqui no Brasil, aconteceu há umas semanas. Uma senhora, à qual eu já tinha dado bolachas (não dou dinheiro, apenas bens), revelou-se como uma pedinte manhosa, já que após começar a percepcionar os hábitos dela no bairro, topei que ela se serve de uma criança que não é dela, utilizando também uma outra criança, já dela, para meter pena às pessoas. Vem de transportes públicos pedir aqui no bairro e é uma excelente actriz. O resultado foi apenas um, outro dia, quando ela entrou numa lanchonete onde eu estava a comer, e me pediu dinheiro, eu disse simplesmente que não. Detesto quando me enganam...

pétala disse...

Pois é... parece que esta família de quem alguém chegado me falou - porque conhece - não é a única. Também não será só esta e a da Ilda.
Não somos ricos, mas não nos custa ajudar naquilo que são os bens de sobrevivência.
Eu não consigo ficar indiferente. nestes casos - onde mete comida e não dinheiro - não hesito. Se é um erro não sei, mas não fico de consciência pesada!
Beijinho para ti :)