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Rebanho

Os sinos tocavam
chamando a aldeia.
Iam as mulheres, os homens,
voltavam de alma cheia.
Rezavam o terço
repetiam novenas.
As vozes calavam-se,
ecoavam cantilenas.
No altar, o senhor,
à direita, a sua mãe.
À esquerda a santa
cujo nome é o meu também.
Os sinos, quando tocavam,
eram toque do tambor,
eram ordem militar
era remédio para a dor.
O povo saía de casa,
pelos sinos enfeitiçado,
na sua roupa de domingo,
com o sapato engraxado.
O padre, seboso,
regozija com a plateia.
Ovelhas fiéis, obedientes,
todo um povo, uma aldeia.
Os bancos eram duros.
Os joelhos estavam doridos.
Mas o rebanho ajoelhava,
mostravam estar arrependidos.
O sacristão dormitava, 
escondido na sacristia.
Bebericou da garrafa.
Roubou o azeite da almotolia.
Satisfeito com o remorso,
feliz pela penitência,
o padre apela ao sacrifício
da já sacrificada audiência.
Pede luto, lágrimas, sofrimento,
roupa escura, jejum.
Pede joelhos em sangue.
Pede tudo e a ele, nenhum.
Os sinos voltavam a tocar,
expulsavam todo o rebanho.
Mandavam todos para casa:
o carneiro, ovelha, o anho.
E todos iam, ordeiros,
felizes pelo sermão,
livres do mal e do pecado,
do purgatório, da tentação.

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