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Sonho

Percorria-lhe o corpo o ar frio da noite. Estava escuro e não via o caminho à sua frente. Tinha saído de casa a correr, assustada e desesperada. Sentia na nuca um calor, como o bafo quente de um animal pronto a abocanhá-la. Corria mais depressa. Cada vez mais depressa. Sentia uma presença atrás de si. Um murmúrio, uma respiração ténue mas pesada. Na garganta, prendia-se-lhe um nó que não a deixava gritar. Um nó tão apertado que a sufocava. As lágrimas começaram a correr pelo rosto, logo afastadas pelo vento que as cortava ao meio como uma lâmina. Corria, corria. Já não sentia as pernas, nem os pés. Apenas as mãos cerradas com tanta força que os nós dos dedos estavam agora brancos. Aquele calor na nuca espalhava-se pelos ombros. Empurrava-a em direcção ao chão. Contrariou o mais que pôde essa besta invisível que a perseguia e que a puxava para si com um poder magnético. Chega, pensou. Ou disse-o alto. Porque nesse momento tudo parou. O vento amainou. O calor arrefeceu. As lágrimas secaram. Os dedos relaxaram. A medo, olhou para trás. Nada. Ninguém. Ofegante, percorreu com os olhos os poucos metros que conseguia enxergar à sua volta. Nada. E acordou.

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