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Tempo

Sinto o tempo a passar como pingos de uma torneira mal fechada. Se fechasse os olhos, conseguiria ouvir o eco de cada segundo a formar poças, depois lagos, depois rios. Um mar.
O tempo pesa. Não como uma pedra, mas como a mão castigadora de um pai. Está sempre pronto a mostrar a sua dureza quando nos esquecemos de lhe reconhecer a autoridade.
O tempo é uma sombra que muda de tamanho, ora pequena, na madrugada do dia, ora imensa, no crepúsculo da idade. Arrasta tudo para dentro de si para depois tudo devolver: colhe para depois semear. Uma poça, logo um mar. O peso do tempo é o volume dessa água acumulada, desses pingos recolhidos ao longo de uma vida. Não se perde, transforma-se: em oceano profundo, em alto-mar imenso, em maremotos, por vezes. Mas é apenas quando se forma oceano, que vemos a linha do horizonte cada vez mais firme, mais distinta. É no alto-mar, na tempestade ou na planura das águas tranquilas, que distinguimos quem somos: a poça que éramos, o rio que percorremos e o mar em que nos transformámos. 

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